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O Cinema na blogosfera

Domingo, 31.01.10

 

"A Grande História do Cinema" é um projecto ambicioso lançado pelo blogue Cinema is my life. Um projecto "colectivo  abrangente" que conta com a "colaboração de vários bloggers conhecidos".

Trata-se de oferecer "um leve estudo sobre a história cinematográfica desde os seus primórdios" e "conhecimentos acerca da evolução do cinema e a sua relação com o contexto social".

Os grandes temas serão apresentados de forma objectiva pelo autor do blogue e depois, no seu desenvolvimento, haverá lugar para uma visão pessoal, "subjectiva", de cada colaborador.

Desafia ainda os seus leitores a participar, o que também animará esta história do Cinema.

  

Dos blogues que colaboram neste projecto, apenas conheço alguns, além do próprio Cinema is my life: o Cinematograficamente falando e O homem que sabia demasiado. Mas a lista é considerável, como poderão confirmar no post que linkei acima, e será uma óptima oportunidade para me actualizar, blogosfericamente falando.

 

Vai, pois, valer a pena acompanhar esta iniciativa blogosférica, animada pelo que a todos nos une: o amor ao Cinema. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:46

O feitiço da Lua

Sexta-feira, 29.01.10

 

Foi tema de filme, Moonstruck, o seu feitiço...

Leio no Yahoo que hoje a Lua está visível como não estará em mais nenhuma altura do ano. Chamam-lhe mesmo the wolf moon...

Eu prefiro chamar-lhe Cosmo's moon... como diz uma das personagens do filme. Pelos vistos, Cosmo deixara-se enfeitiçar há muitos anos. Agora, limitava-se a fugir da morte, como lhe diz a mulher ao desconfiar do seu caso. Mas será a filha, uma viúva ainda jovem que perdera a esperança de viver um amor feliz, a submeter-se desta vez ao seu feitiço.

Se puderem, acompanhem esta Lua e vejam o filme.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:16

A Música no Cinema: Bernard Herrmann

Quarta-feira, 27.01.10


Associamos Bernard Herrmann aos filmes de Hitchcock: The Trouble With Harry, The Man Who Knew Too Much, Vertigo, North by Northwest, Psycho, Marnie… Destes, talvez a composição mais impressionante seja mesmo a de North by Nothwest… aquela perseguição final no monumento do monte Rushmore…


Mas a minha composição preferida é a de um Nicholas Ray On Dangerous Ground. A música segue o filme, da escuridão da noite citadina, e da violência e revolta do protagonista, até esse lugar na neve, muito branco e solitário. Até chegar a essa casa isolada, onde uma mulher nunca se sente sozinha e compreende o mundo exterior, o mundo que recebe através dos olhos de outros. Esse lugar muito branco será a possibilidade de alguma paz e tranquilidade para este homem.
A música adquire força, intensidade e dramatismo nessa perseguição pela neve. Nunca mais a consegui esquecer, é magnífica. Se virem ou revirem o filme, reparem bem nessa cena da perseguição: está lá a tragédia e o absurdo também, a maior vulnerabilidade, e também a maior dor, a que marca e aprisiona para sempre.

 

Curiosidade: Como o riso é terapêutico e calculo que muitos de nós precisamos dessa terapia, sugiro que vejam ou revejam este Hitchcock bem-humorado The Trouble With Harry.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:46

Coisas simples: o riso

Terça-feira, 26.01.10

 

Se um dia destes morrer a rir, os principais suspeitos são os elementos do grupo Delito de Opinião, sobretudo o seu principal humorista, João Carvalho.

Aqui, em mais um dos seus delitos:

 

 

" Um ano depois: o Bo(m) pensador

 

 

Cheira-me que isto dos dias tranquilos por aqui  estão a acabar  — pensa Bo, com aquele seu faro tão português. Ainda por cima, recebi de Massachusetts um osso difícil de roer...  "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:26

Do Tempo das Descobertas: Biblioteca Municipal

Segunda-feira, 25.01.10

 

Sempre gostei de bibliotecas, das suas mesas alinhadas, dos seus suportes de madeira em cima e tudo. É assim que eu imagino esta biblioteca que descobri no Esquissos.

 

 

" Biblioteca Municipal

 
(escrito num intervalo de cinco minutos)

Andava a ler literatura russa. As portas da biblioteca municipal escancaravam-se e logo ele sentado na mesa de madeira transversal à estante. Cuidava que não podia deixar de existir sem entranhar as sábias palavras dos sábios russos. Portanto, deixou-se desvanecer dos propósitos sociais da vida, unha e carne com a lombada poeirenta dos livros expostos à espera que os avivassem. De vez em quando um funcionário preocupado com a sua alimentação ou falta dela trazia-lhe uma sandes de queijo. Ele aceitava, não desviando uma nesga a atenção das páginas pálidas de tão amarelas. Às sete e meia o segurança agarrava-lhe um braço e expulsava-o rotineiramente. No dia seguinte o ciclo recomeçava.
Ela apareceu nas últimas semanas da sua proeza, escondida debaixo dos óculos de massa pretos. Acariciava os livros com mãos delicadas, roçava-as nas capas dos romances. Escusado será dizer que da mesma e não raras vezes ingénua maneira, acariciava-lhe os lábios e a face em goladas de ar húmido. Pelo menos era o que, no instinto de macho sustido, o agoniava. Não se precipitou. Ao fechar o último livro tomou-a nos braços como carne impressa editada para ele. Acariciou-lhe os lábios e roçou-lhe a face. Afinal de contas, apenas tinham Dostoiévski, Tolstói e o resto dos sábios como testemunhas.  "

 
" Biblioteca Municipal II

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:10

A Música no Cinema: Leonard Bernstein

Domingo, 24.01.10

  

Há duas formas de colocar a música num filme, pelo menos é o que verifiquei ao longo de anos a ver filmes: de forma fusional ou de forma justaposta (como uma sinalização ou identificação).

A minha preferida é a primeira, quando a música acompanha as cenas e passa a fazer parte delas. Esta ligação deve implicar um processo muito trabalhoso: a imagem não pode ser submergida pela música, nem a ideia contrariada ou caricaturada, a não ser que seja essa a intenção. Nos filmes de Hitchcock, Bernard Herrman fá-lo de forma magistral.

 

Embora possa parecer fusional, sempre que a música sugere uma personagem ou um lugar ou uma ideia, considero-a justaposta, como se lhe colássemos em cima uma etiqueta a identificá-los. Exemplo: revi há dias o Guerra e Paz com o Henry Fonda (Pedro) e a Audrey Hepburn (a Natasha mais comovente que já vi) e a música era um pavor. Quando os soldados franceses, já em retirada, se deslocam penosanamente pelos pântanos russos, nesse Inverno rigoroso, há partes em que os acordes sugerem a Marselhesa. Estão a ver a ideia?

Em Manhattan, Woody Allen revela o seu amor a Nova Iorque e é a música de George Gershwin que nos acompanha. Em muitos dos seus filmes a banda sonora é uma homenagem a compositores americanos.

Assim também é nos musicais: a música adquire um estatuto próprio, os actores colocam-se quase em sentido, passam a cantores. Mesmo que o façam naturalmente, como na Serenata à Chuva.

 

Bem, hoje pensei em Leonard Bernstein, não pelo seu West Side Story mas pelo filme On The Waterfront. No filme a música acompanha as cenas e as personagens de tal forma que deixamos de conceber a imagem sem a música e a música sem a imagem. Vai do poético ao bélico e do bélico ao poético. Agarra-nos. Hipnotiza-nos.

O filme em si é um desafio, metade acção exterior, ameaças, perseguições, lutas desiguais, metade acção interior, o conflito, a dúvida, a revolta. Afinal, é Elia Kazan. É fascinante ver como a música consegue ligar tudo isso e transportar-nos para essa parte da cidade, a parte escura, a parte violenta. E para esse refúgio no terraço de um prédio, onde o rapaz cria pombos. Metaforicamente o filme é belissimo. (Lembram-se de um outro terraço assim, de um prédio escuro, no Blade Runner?)

Leonard Bernstein pertence a um grupo de pessoas com uma sensibilidade musical invulgar. Lembram-se dos seus Concertos para Jovens? Além de descodificar as frases musicais, a ideia, a emoção, o sentimento, e de nos ensinar a identificar os instrumentos e o seu papel ali, enquadra o compositor na sua época. Um professor magnífico, com uma rara capacidade de comunicação e de agarrar os ouvintes.  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:44

Do Tempo das Descobertas: "Der himmel über Berlin" e "Ao fim de uns dias"

Sábado, 23.01.10

 

Do Vontade Indómita dois posts que nos levam até Berlim e a um bater de asas que nos recorda um filme poético de Wim Wenders e a maior aventura de um anjo: tornar-se homem, e ficar sujeito à condição de mortal, às sensações, às emoções, aos sentimentos.

 

 

" Der himmel über Berlin

 

 



Als das Kind Kind war, / ging es mit hängenden Armen, / wollte der Bach sei ein Fluß, / der Fluß sei ein Strom, / und diese Pfütze das Meer. // Als das Kind Kind war, / wußte es nicht, / daß es Kind war, / alles war ihm beseelt, / und alle Seelen waren eins. [...]

Não sei alemão. Não obstante, este poema de Peter Handke em voz-off, na cena da impressionante Staatsbibliothek, é dos momentos «mais belos» (ordem estética) do filme de Wenders. Por isso, amanhã de manhã para lá vou eu, com a fonética destra métrica na cabeça à procura de Damiel e Cassiel. Para o que der e vier.  "

" ao fim de uns dias,

a neve continua a cobrir a cidade com um manto branco e posso igualmente dizer que ainda não encontrei Damiel ou Cassiel. Nem na Staatsbibliothek, nem na estátua ao cimo da Siegessäule onde Wenders os filmou. No entanto, já vi uma ou outra mulher com a leveza & graça da trapezista Marion. Essa mesma figura misteriosa e solitária que foi a responsável por fazer um anjo recusar a dádiva divina, insípida e sentimentalmente distante da imortalidade. Uma ou outra, dizia eu, ou não fosse esta semana a Fashion Week Berlin.  "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:55

Mais sobre: Esta comunidade blogosférica em expansão

Sábado, 23.01.10

  

Já aqui referi que é gratificante ler blogues na nossa língua original. E a comunidade de blogues em português ainda está em expansão.

Iniciei esta minha aventura no Sapo, que me acolheu sempre com amabilidade, assim como a tantos outros blogues que tem divulgado. Aqui referi alguns dos meus preferidos no Sapo. Hoje irei referir outros:

Alguns mostram-me a verdade original, outros a verdade através de um olhar sensível e poético.

Uns são luminosos, outros sombrios...

Uns falam-me da minha paixão mais evidente, o cinema-arte, a metáfora da vida, ou a possibilidade da vida-arte, da vida autêntica, sentida, plenamente vivida.

E restam os livros... que sempre mantive perto de mim, os livros. Alguns ainda encaixotados, de mudanças várias, que espero em breve voltar a folhear.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 03:12

As crianças do Haiti

Sexta-feira, 22.01.10

 

É nestas alturas, quando se fala de rapto de crianças, ou de redes de tráfico de crianças, ou de pedofilia, que eu desejava viver noutro planeta!

As crianças deviam ser sempre a nossa prioridade, de uma civilização digna desse nome, de uma espécie que se diz evoluída, mas que desce rapidamente ao mais básico e primitivo em três tempos.

Isto existe. Gostaríamos de já não ouvir notícias destas, mas isto existe. E não só no Haiti, em todo o lado. Mas agora é no Haiti, numa população tão fragilizada e vulnerável... 

 

Aqui vai, do Papel Lustro, um link a um apelo da Unicef Portugal.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:45

Do Tempo das Descobertas: O Medo

Sexta-feira, 22.01.10

 

Descobri este post magnífico n' O Cachimbo de Magritte que aborda um dos temas mais difíceis: a natureza do mal e as suas diversas dimensões. E a emoção mais primitiva, ao serviço da sobrevivência:

 

 

" O Medo
 
Em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Julio Cortázar narra um episódio ocorrido num autocarro parisiense (tentem não se distrair com a aliteração) e dá-lhe o nome de Encontro com o Mal. Nos autocarros parisienses e, presumo, na maior parte dos transportes colectivos do mundo ocidental, podemos esperar os acontecimentos mais insólitos. Eu já fui testemunha de uma boa dezena de tais acontecimentos e acredito não ser mais azarado ou mais atento do que a maioria dos cidadãos que, por questões económicas ou de deficiente ordenamento do território, é obrigada a frequentar diariamente os veículos dos TST. Se, com o nosso exagero meridional, podemos classificar algumas dessas experiências como “infernais” ou, os como dirão os que ao exagero juntam a erudição, “dantescas”, não será, porém, razoável que esperemos um encontro com o Mal. Seria uma experiência que nem o preço dos bilhetes poderia justificar. O Mal, visto por Cortázar, é um homem de “sobretudo e chapéu pretos”. Deixo para quem sabe: “A certa altura, tive consciência do medo que se tinha vindo a instalar naquele corredor, no qual jamais alguém teria pensado que um dia sentiria medo. Não sei descrever uma coisa destas [os escritores como Cortázar têm a tendência a desvalorizar as suas capacidades para, de seguida, nos impressionarem com os seus recursos]; era uma aura, uma irradiação de mal, uma presença abominável.” Prossegue o argentino: “Dizer que era o Mal não é dizer nada; conhecemos as suas caras sorridentes e os seus múltiplos jogos amáveis [não é o Diabo capaz de se transformar em anjo de luz?]. O insuportável (e isso sentia-o o revisor na sua simplicidade, sentíamo-lo todos a partir dos nossos diversos horizontes) era a ausência de qualquer símbolo revelador.” O que Cortázar quer dizer é que o Mal é um vazio de sentido e que o medo alimenta-se desse vazio.

Guy de Maupassant descreveu, talvez melhor do que ninguém, esse sentimento que não deve ser confundido com outras emoções limítrofes: “Um homem enérgico nunca tem medo perante um perigo iminente. Sente-se emocionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa.” Estas palavras foram escritas por Maupassant num conto que se chama, sem surpresas, O Medo. E o que é o medo? O medo “acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas, face a ameaças vagas. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora.” Se Maupassant tivesse ficado por aqui nós teríamos medo, porque esta é uma descrição um tanto vaga. Mas, logo a seguir e através do relato de uma personagem, ilustra o sentimento. O homem em questão foi confrontado com o medo em duas situações bastante distintas: a primeira, no deserto, em plena luz do dia. A segunda, numa noite fria de Dezembro, num bosque do nordeste de França. A primeira diz-nos que o medo não é necessariamente, e ao contrário do que o cinema de terror nos fez crer, um animal noctívago. A segunda é uma representação mais tradicional - centro-europeia e grimmesca – do medo. Um bosque, uma casa no meio do bosque, a noite, condições atmosféricas desfavoráveis – aquilo com que se assustam as crianças. Para o estudo do medo, e até para seguirmos a lógica iniciada com Cortázar, a primeira situação é muito mais produtiva. Em plena luz do dia e no deserto (Maupassant diz que o medo é filho do Norte e que “o sol dissipa-o como uma névoa”), o medo é mais puro porque se funda no absoluto vazio de referências que normalmente nos permitem pressenti-lo. O deserto não tem esquinas nem sombras. O medo que aí se possa sentir paira mais acima. Cobre toda a extensão de areia, mas não se manifesta claramente. É a tal ameaça vaga e indecifrável. No conto, os árabes que acompanham o homem dizem: “A morte está sobre nós”. Em todo o lado e em lado nenhum, como o Deus único dos israelitas – uma invenção do deserto.

Quando Hitchcock quis desafiar as convenções do suspense, criou uma das cenas mais fascinantes de toda a sua obra e da história do cinema. Colocou um homem no meio do nada, num espaço aberto, em plena luz do dia, à espera de qualquer coisa. Nunca o medo foi tão abstracto. A cena, como o leitor cinéfilo já terá deduzido, pertence a North by Northwest e é a matriz de outros filmes, como Duel, de Steven Spielberg, em que o Mal não se esconde à noite atrás de uma porta fechada. Se o tempo nos permitir, ainda voltaremos a Hitchcock. Para já, aproveitemos o boleia do camião de Spielberg para avançar. Nós ficamos sem saber quem conduz o camião que persegue aquele pobre homem pelas estradas secundárias da América. O Mal não tem rosto (no que se parece com o Deus de Moisés), nem uma causa que o explique. Para todos os efeitos, o camião é guiado por ninguém e o homem perseguido, ocupado em manter-se inteiro, não pode perder tempo a pensar nas motivações do inimigo (no fundo, é a história de Nobody a perseguir o Everyman).

Este assustador vazio de sentido pode ser encontrado amiúde na literatura fantástica. E nada melhor do que animais em fúria para acentuar o irracional. Consideremos alguns exemplos. Os Cavalos de Abdera, de Leopoldo Lugones, O Terror, novela de Arthur Machen e o conto Os Pássaros, de Daphne du Maurier, são três relatos sobre o tema dos ataques inexplicáveis de animais contra humanos. As narrativas das obras de Machen e de du Maurier decorrem em períodos de guerra, pelo que ambas podem ser lidas como alegorias em que os animais simbolizam a ameaça exterior. Nos dois casos, o estilo é realista. O conto de Lugones é muito diferente. É um conto mitológico, temperado com um humor ausente nos outros dois. Lugones fala da célebre raça de cavalos de Abdera, os quais eram tão acarinhados pelos seus donos que alguns destes até tinham o hábito de os admitir à mesa. Tamanha deferência resulta em tragédia porque os animais, entusiasmados com o estatuto que lhes é concedido, resolvem atacar a cidade, destruindo as casas e matando os habitantes. Não é dada qualquer explicação para o comportamento dos animais, embora possamos arriscar uma interpretação; Lugones alerta para os efeitos perversos de uma educação laxista ou, o que também não é descabido, desenha uma metáfora sobre as relações de poder na sociedade: os “cavalos” devem ser tratados como cavalos ou corremos o risco de um dia os encontrarmos na cama com as nossas donzelas. Em O Terror, os ataques são levados a cabo por aves, cavalos e – suspenda-se a descrença – pirilampos. No conto de du Maurier, os responsáveis são os do título, uma Luftwaffe do Mal, passe o pleonasmo. O filme de Hitchcock (com argumento de Evan Hunter) é muito melhor enquanto ensaio sobre o Mal porque é expurgado do subtexto da guerra. Em nenhum momento somos convidados a ver o filme como uma alegoria da guerra. No filme, o escatológico (it’s the end of the world) é bíblico, metafísico, enquanto que, no conto, é uma representação literária de ameaças reais.

Em qualquer destes casos, o medo radica na ausência de qualquer explicação plausível para a irrupção do Mal. Um homicida maníaco ou os alemães (O Terror) e a vaga de frio (Os Pássaros) oferecem “pelo menos, a tranquilidade de uma explicação, e qualquer explicação, ainda que pobre, é melhor do que um mistério terrível e intolerável”, para citar uma passagem do livro de Machen. O mistério terrível e intolerável do ruído de tambores no meio do deserto e da fúria de animais enlouquecidos ou assustadoramente conscientes; o mistério terrível e intolerável de um homem numa estrada deserta e de um homem de sobretudo e chapéu pretos num autocarro em Paris. Esse mistério a que fomos chamando de Mal tem outro nome familiar e, ao mesmo tempo, longínquo. É a morte, a que está sobre nós.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:00


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